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A Morte de Um Potro – César Oliveira e Rogério Melo


10ª Estância da Canção Gaúcha – São Gabriel – RS – 2002.

A MORTE DE UM POTRO

Letra: Rogério Avila
Música: Carlos Madruga
Intérpretes: César Oliveira e Rogério Melo

Na pata do potro o talho do arame,
Do sangue no pasto o golpe no chão,
Se desata a rédea e a campana do estrivo,
Vai sonando nos bastos, numa prece ao rincão.

A morte de um pingo na lida da doma
É tristeza que assoma no olhar do campeiro,
Se vinha blandeando, terciando com a espora,
Num berro que agora é silêncio ao potreiro.

Assim cruza o rastro o índio vaqueano,
Buscando abandono do que amadrinhou,
Saber da trompada que viu contra o mato
E o potro veiaco se descogotou.

Retornam chilenas e as cordas de arrasto,
A cincha e os bast’ numa ausência de lombo,
Ficou um pedaço da pampa estendido
E o pago sentido no quadro de um tombo.

Talvez a querência anoiteça mais triste,
Mas o campo se arrima na sorte de um outro,
Ficou a mirada, lembrando do estouro,
Na falta do couro das garrão de potro.

Tormenta – Joca Martins


4ª Ramada da Canção Nativa – Encruzilhada do Sul – RS – 1994.
Composição que premiou como Melhor Instrumentista o violonista Marcello Caminha.

TORMENTA

Letra: Severino Moreira
Música: Zulmar Benitez
Intérprete: Joca Martins

“Um Fenômeno Natural”

Se tisnam tons de fumaça
De contra o fio do horizonte
E o vento trás num reponte
Gavionas de cola alçada
Lobunas entropilhadas
Redemoneadas na poeira
Rompendo pelas porteiras
Que nem tropa estourada.

A pampa se empardece
Prenúncio de temporal
E uma tropilha bagual
Alinha a cola pra chuva.
O céu manto de viúva
Se desbota no aguaceiro
Quando um raio matreiro
Afocinha na timbaúva.

Trovoadas que se repetem
Como touro em desafio
E o vento faz corrupio
Na crista dos arvoredos
A lua talvez com medo
Nem dá sinal de vida
E a tarde estremecida
Já se recolhe mais cedo.

Um raio na cola do outro
Se reflete no açude
Rasgando a negritude
Dessa tarde azarenta
Lembro o taura que aguenta
N’alguma ronda de tropa
Onde até a alma se ensopa
Na fúria de uma tormenta.

Serenata – Os Cantores dos Sete Povos


8ª Califórnia da Canção Nativa do RS – Uruguaiana – RS – 1978.
O grupo Os Cantores dos Sete Povos receberam o prêmip de Melhor Caracterização (traje campeiro).

SERENATA

Letra: Telmo de Lima Freitas
Música: Telmo de Lima Freitas
Intérprete: Os Cantores dos Sete Povos

Se por acaso escutar meio dormindo
esta cordeona meia voz quase chorando,
pode acordar, não fique triste nesta hora,
é a minha alma de gaudério retrechando.

Se te lembrares de quem fui em outras eras,
quando eu tropeava ilusões, só por tropear,
volta a sorrir como sorria antigamente,
quando cevava o chimarrão pra me esperar.

Alma gaudéria, igual a minha, que vagueia,
campeando coisas simplesmente por campear,
é pega-pega que se apega muitas vezes
com os revezes caborteiros de um olhar.

Se for em vão o pensamento, não importa!
O importante nesta vida é recordar…
As coias velhas se renovam pra quem canta
mudando a forma, muitas vezes, de pensar.

Ouve a receita desta gaita malfazeja,
quando gagueja não dizendo quase nada…
são os segredos que guardamos mano-a-mano,
que se libertam ao sabor das madrugadas.

Relato de Um Susto – Tiago Cesarino


13ª Vigília do Canto Gaúcho – Cachoeira do Sul – RS – 2002.

RELATO DE UM SUSTO

Letra: Tadeu Martins
Música: Zulmar Benites
Intérprete: Tiago Cesarino

Fui repassar o bragado
Já no ponto do elogio,
Era um domingo gelado
Que até o sol era frio.
Mesmo no quarto galope
Todo cuidado era pouco,
Qualquer redomão no trote
Mostra o tino de louco.

Cuidando sombra e sinal,
Arreio, barulho e pasto,
Um redomão de bocal
Tem gana dentro do casco.
Parece que o diabo nota
Que o domingo é pra descanso,
Cravou a guampa na bota,
Aonde se cria o ranço.

Dum maço de vassourinha
Vinha um chamado de pio,
Pois era uma perdizinha
Quase morrendo de frio.
Boleei a perna com jeito,
O redomão se ariscou,
Cravei a espora no peito
E o outro pé me resbalou.

Pateando, virou uma foice,
Mais ligeiro que uma bala
E se endiabrou dando coice
No panejar do meu pala.
Um pé maneado no estribo
E a rédea esquerda na mão,
Sem saber qual o motivo
Dei de cabeça no chão.

Me vi naquele extravio,
Entre pulo e manotaço,
Redomão do currupio,
Eu não parei de dar laço!
A desgraça não me gruda
Porque eu nunca fui incréu
Por isso pedi ajuda
Ao “Pai Véio” lá do céu.

Nem terminei o pedido,
A bota saltou do pé!
O animal deu um bufido
E eu já me encontrei de pé!
Corri os olhos no corpo,
Não senti nada quebrado,
Eu não me sentia morto
E sofrenei o bragado.

Pedi desculpa e montei
Com a tarequeira bulida,
“Cuê-Pucha! Agnus Dei!”
Por nada se perde a vida!
Me fui quietito, cismando,
Entendendo a muito custo…
Dois amigos se estranhando
Por causa apenas de um susto.

Querência Serrana – Os Tiranos


9º Ronco do Bugio – São Francisco de Paula – RS – 1995.

QUERÊNCIA SERRANA

Letra: Telmo de Lima Freitas
Melodia: Telmo de Lima Freitas
Intérpretes: Os Tiranos

Venho lá de Cazuza Ferreira,
Brasileira querência serrana,
Onde bate um minuano daqueles
De durar quatro ou cinco semanas.

Com licença, São Chico de Paula,
Teu distrito te pede atenção
Para entrar no compasso do ronco,
De cordeona, pandeiro e violão.

O meu povo aprendeu desde cedo
Ser amigo, leal e fraterno;
Não ter medo da luta da vida,
Não afróxa o garrão pro inverno.

Quando a geada encaranga a campanha,
Nem a canha consegue esquentar…
Um camargo espumando a caneca
Dá vontade da gente tomar.

Trago grande e pinhão à vontade,
Sem maldade se vive a cantar.
O tio Beto contando as histórias
Que só ele consegue contar.

Quando bate um ventito daqueles
Que os palanques tilintam de frio…
Cazuzense encilha o cavalo
No compasso do velho bugio.